O recente segundo turno das eleições presidenciais no Brasil, realizado em outubro de 2026, trouxe à tona um cenário econômico paradoxal. Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, mesmo tendo à disposição um quadro de crescimento econômico e queda do desemprego. Entretanto, a vitória foi conquistada de forma acirrada, o que reflete uma realidade complexa: os avanços econômicos não conseguiram gerar uma percepção generalizada de bem-estar entre a população.
A despeito de três anos consecutivos de crescimento, com o desemprego atingindo mínimos históricos e a renda média do trabalho em ascensão, muitos brasileiros ainda sentem os efeitos negativos do custo de vida elevado, das dívidas acumuladas e das altas taxas de juros. Especialistas apontam que o crescimento econômico, embora real, não se distribuiu de maneira equitativa entre todos os setores e trabalhadores. Como observa Silvia Matos, da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), a média do PIB pode esconder realidades díspares, onde alguns setores prosperam enquanto outros permanecem estagnados.
O mercado de trabalho também apresenta sinais de desigualdade: as novas vagas criadas são predominantemente em serviços que exigem menor qualificação, enquanto setores que demandam formação superior não experienciaram crescimento semelhante. Essa realidade se reflete no salário mínimo, que, mesmo com reajustes, ainda está aquém dos valores reais de anos anteriores, dificultando a recuperação do poder de compra, especialmente para as famílias de baixa renda.
Ademais, a questão do endividamento familiar se torna cada vez mais premente. Com 28,7% da renda mensal comprometida com dívidas, as famílias enfrentam um ciclo de pressão financeira que limita o potencial de consumo. O governo, por meio do programa Desenrola, tem tentado auxiliar na renegociação dessas dívidas, mas a eficácia dessas iniciativas é questionada, já que não atacam os fatores estruturais que levam ao endividamento.
As contas públicas, por sua vez, também desempenham um papel crucial nesse cenário. O déficit primário crescente e a dívida pública em alta são preocupações constantes, que geram desconfiança entre investidores e resultam em juros elevados. Essa situação, além de pressionar o orçamento das famílias, dificulta a recuperação econômica e a expansão dos investimentos.
Embora haja críticas à gestão fiscal e à política monetária, alguns economistas veem na reforma tributária e na manutenção da autonomia do Banco Central avanços que podem trazer benefícios a longo prazo. No entanto, a polarização política e a frustração com as expectativas geradas pela volta de Lula ao poder complicam a avaliação do governo. Para muitos, a comparação com os anos de prosperidade dos primeiros mandatos de Lula e Dilma gera descontentamento, uma vez que os resultados atuais não correspondem à esperança de um retorno rápido àqueles tempos de bonança.
Assim, o governo enfrenta um desafio duplo: melhorar a percepção popular sobre os avanços econômicos enquanto navega por um ambiente político e social marcado por divisões e expectativas não atendidas. A busca por uma agenda mais centrada e inclusiva pode ser o caminho para conquistar uma base de apoio mais sólida e garantir a estabilidade necessária para um crescimento sustentável.



